quarta-feira, 31 de julho de 2013


Era uma vez, num reino não muito longe daqui, uma linda princesinha a quem todos chamavam Pequena, porque ela, de fato, era muito pequenininha. Sua pele era branca e morna como leite quentinho e seus cabelos tinham um vermelho tão intenso que causavam queimaduras de segundo grau a quem quer que ficasse exposto muito tempo a eles. Seus olhos pareciam tão férteis e fundos que não era de se estranhar se alguém dissesse que poderia existir todo um universo ali dentro. Sua boca era fresca como as manhãs da primavera e o seu sorriso tinha o poder se extinguir qualquer vestígio de escuridão que, por ventura, ainda cismasse em acompanhá-la.
            No dia do nascimento de Pequena, o rei e a rainha decretaram feriado por tempo indeterminado no reino. Os festejos atravessaram noites e dias, se estenderam por todas as casas, ruas e por onde mais houvesse espaço. O rei ofereceu tanta bebida e a rainha tanta comida ao povo que nunca se teve notícia de comemoração sequer parecida na história.
            Nem todos, porém, ficaram satisfeitos com aquela alegria. Havia no reino uma fada muito justa e querida. Ela morava numa torre muito alta no centro da aldeia, de onde se podia observar até as terras mais longínquas e inimagináveis. Por ser tão sábia e sempre zelar pelo bem-estar do povo, todo ano era realizada uma festa para comemorar o seu aniversário que durava sete dias e sete noites. O rei e a rainha mandavam servir muita bebida e comida por toda cidade naquele que, até então, era o mais importante feriado do reino. Esta festança, entretanto, nem se comparava com a que estava sendo feita em homenagem a Pequena.
Quando a menina nasceu, a fada, como todos os habitantes do reino, ficou muito feliz e tratou logo de ir ao castelo abençoá-la. Pequena tinha algo especial, era tão pequenininha e tão linda que cativava qualquer um que a visse, quase como um encanto. Fascinada, a fada quis voltar à sua torre para pensar melhor num dom único, com o qual poderia presentear a princesinha. Ao fim de uma semana lá trancada, a fada ainda não havia pensado num presente que fosse à altura de Pequena. Como a festa, entretanto, ainda acontecia lá fora, ela se sentiu aliviada por ter mais tempo para elaborar algo magnífico.
            Os dias se passaram e o reino não se cansava de festejar. A fada que, até então, recebia muitas visitas todos os dias em sua torre, se encontrava agora sozinha. Os pedidos de ajuda, conselhos e recomendações, haviam desaparecido. No meio de tanta alegria, não havia mais problemas. Até mesmo o rei, que só tomava uma decisão após consultá-la, nem se lembrava mais da pobre que estava abandonada em sua torre.
            Como todos sabem, a vaidade é um mal que corrói aos poucos e, até os mais sábios, de vez em quando sucumbem a esta faculdade essencialmente humana. Ao fim da quarta semana de festas, e sem nenhuma previsão de fim para as mesmas, a fada não suportou a angústia. Impulsionada pela raiva, foi até o castelo e jogou um feitiço na princesinha, fazendo seu coração parar de bater.
Todos ficaram perplexos, pois nunca imaginaram que tão cruel ato partiria logo da mais sábia criatura existente no reino. A fada, porém, nem precisou ouvir o choro e os pedidos que ecoavam de todos os cantos para que voltasse atrás. Ao chegar a sua torre, recobrada a consciência após o surto de cólera, percebeu o que havia feito e correu de volta ao castelo para tentar consertar o seu erro.
Arrependimento às vezes mata. E foi o que aconteceu com a fada. Quando se deu conta que o feitiço não poderia ser revertido, pois se tratava de algo poderosíssimo – uma pessoa com raiva pode obrar coisas terríveis – ela apelou para a única maneira de salvar a menina. Arrancou o próprio coração do peito e passou-o à Pequena, que voltou a viver.
Foi assim durante muito tempo. Pequena cresceu como uma criança comum, mas desde sempre apresentava algo que a distinguia de todo o resto do mundo: a capacidade incondicional de amar. Amava os animais, seus pais, amigos e tudo mais que fazia parte dela mesma. Por isso, era extremamente querida por quem a conhecia.
            Todos sabem, porém, que a natureza segue regras extremamente rígidas para a construção orgânica dos seres. Coração de fada é feito para fada e coração de gente é feito para gente. Além disso, o órgão humano possui um espaço para amar e outro para odiar. Logo, quanto menos se odeia, mais se ama. De vez em quando, porém, tudo isso se mistura e vira uma bagunça só, mas essas coisas fazem parte da estranha condição humana. O coração das fadas, por sua vez, é infinito. Vai crescendo à medida que o amor cresce, não tem limites.
Com o passar do tempo, Pequena se transformou em uma linda jovem e, então, o inevitável aconteceu: ela descobriu uma forma de amor que é muito comum para os seres humanos, mas que não foi feita para um coração de fada: o amor entre um homem e uma mulher.
Pequena conheceu uma infinidade de príncipes e amou-os intensamente. E mesmo depois que tudo acabava, ela continuava a amá-los, o que fazia com que seu coração seguisse crescendo. A princesinha foi aprendendo a viver assim, amando a muitos, sempre e mais. Era sua condição.
No entanto, em um perfeito dia de sol, ela havia saído para caminhar pelas redondezas do castelo, como sempre fazia no verão. Ao sentar embaixo de uma árvore para descansar, foi surpreendida por um belo rapaz que passava perto dali carregando um barril d’água. Quando ele se deparou com tão perfeita criatura não houve outro caminho: apaixonou-se. Pequena achou engraçado o jeito de falar e pensar daquele jovem e adorava sua companhia. E todos os dias, a partir daquele, ela se sentava sob a sombra da mesma árvore e o rapaz passava no mesmo horário carregando seu barril d’água. Não se sabia mais, da parte dele, o que era trabalho e o que era pretexto para encontrá-la. E não se entendia mais, da parte dela, o quanto sentia de paixão pela sombra daquela árvore e o quanto ardia de vontade de estar ao lado dele.
Aos poucos a princesa foi se encantando com o nobre coração do jovem e não demorou muito para que ambos se amassem. Os dias foram passando e um já não podia se ver longe do outro. O carregador de água fazia tudo para estar com a princesa e ela, por sua vez, amava-o cada vez mais.
O que ambos não sabiam era que o coração de Pequena não estava preparado para aquele amor. Ela havia amado muito em sua vida e seu coração era suficientemente grande para uma menina do seu tamanho. Mas era tarde demais para voltar atrás. Quanto mais amava o rapaz, menos tempo de vida tinha ela. Já não comia e nem respirava direito, porque seu coração havia tomado o espaço dos pulmões e do estômago. E com o tempo cresceria ainda mais.
Ao saber o que estava acontecendo com Pequena, o jovem carregador de água resolveu abdicar do seu amor pela princesinha. Abandonou-a na esperança de que o sentimento dela por fim acabasse e, assim, seu coração parasse de crescer. Foi em vão. Pequena amava demais e não sabia viver de outra forma.
Amor de verdade não acaba nunca, ao contrário, continua crescendo para sempre, ainda que de maneiras diferentes. E não muito tempo depois o coração da princesinha ocupou todo o espaço do seu corpo. Surgiram, então, asas em suas costas que a levaram até o céu. Pois quem ama demais, não morre nunca, vive eternamente, feliz e forte no próprio amor.



Há em algum lugar no cosmos
concebida por visionário astrônomo
uma ideia-planeta
toda feita de diamante

sua composição química
impede a existência de água
mas há excesso de carbono na superfície

de carbono se faz grafite
e aí se escreve
de carbono se faz carbex
e aí se copia
de carbono e calor se faz diamante
e aí quase sempre se faz uma mulher feliz

assim
temos os melhores escritores e nenhum problema conjugal
em ideia-planeta

em ideia-planeta
tempo é veloz veloz
o movimento é ontem
cada ano dura dezoito horas
e quando se dorme um pouco além da conta
já é novembro

para ir de um lado a outro
usa-se o pensamento
e formam-se, assim, cefaleias engarrafamentosas terríveis

não há ciclovias em ideia-planeta
lá como cá não se entende

somos todos as bicicletas dos deuses.